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Vale a pena tomar a vacina contra a dengue?

Written By Diário do Curimataú on sexta-feira, 1 de janeiro de 2016 | sexta-feira, janeiro 01, 2016

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A luta contra a dengue, que antes estava restrita apenas ao controle do mosquito Aedes aegypti, ganhou um novo possível aliado: a vacina Dengvaxia, produzida pelo laboratório francês Sanofi Pasteur, que nessa segunda-feira (28) ganhou aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

A Dengvaxia tem uma eficácia global de 65,6% contra os quatro sorotipos do vírus da dengue, índice menor que o de outras vacinas adotadas na rede pública de saúde, como a da febre amarela, que protege em 90% dos casos.
"Como se trata de uma epidemia muito importante, que não existia vacinas até o momento, a Anvisa decidiu por aprovar, mesmo sendo a eficácia abaixo de 80%", afirmou o diretor da Anvisa, Ivo Bucaresky. Os casos registrados de dengue no Brasil cresceram 176% em relação ao ano passado, segundo último boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde, sendo notificados mais de 1,5 milhão de possíveis casos da doença.
Mas, dependendo do sorotipo da dengue, a eficácia da vacina cai, atingindo 47,1% nos casos de infecção pelo sorotipo 2, por exemplo. O número é baixo, por isso, será que vale a pena você investir cerca de R$ 80 em cada uma das três doses que devem ser tomadas em um intervalo de seis meses? Ou, ainda mais, será que as porcentagens justificariam a oferta por parte do Ministério da Saúde para a população e até uma possível inclusão da vacina no calendário de vacinação?
Para Celso Granato, infectologista do departamento de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), vale a pena aplicar a vacina, já que ela se mostrou 80,8% eficiente nos casos de dengue considerados mais severos, que levam à hospitalização.
Até a primeira semana de dezembro, foram confirmados 1.529 casos de dengue grave e 19.738 casos de dengue com sinais de alarme, um total de 839 pessoas morreram por causa da dengue, o que representa um aumento de 80,4% em comparação com o mesmo período de 2014. "Morreram perto de mil pessoas de dengue no Brasil e ainda não há outra alternativa nem de vacina, nem para matar o mosquito, já que as ações de controle da população de Aedes aegypti tem se mostrado sem sucesso", afirma Granato.
Segundo ele, a Dengvaxia está "longe de ser a vacina dos nossos sonhos", mas se ela é capaz de diminuir a letalidade da doença deve sim ser administrada. "Além disso, ela demonstra eficácia maior em pessoas que já tiveram contato com o vírus, tenham elas manifestado ou não os sintomas da doença, e boa parte da população já teve dengue alguma vez", afirma. Quem pega dengue pela segunda vez tem até dez vezes mais chance de desenvolver uma forma mais grave, segundo o infectologista.

João Bosco Siqueira, epidemiologista e professor do Departamento de Saúde Coletiva da UFGO (Universidade Federal de Goiás), ressalta que a vacina é primeira opção de proteção individual em décadas. "Alguém que tem risco de adoecer por dengue e tem possibilidade de fazer a vacina vai ter uma escolha que ela não tinha antes. Quando tomo a vacina, diminuo meu risco de doença grave", afirma. "Hoje, no país, todo mundo, fora Santa Catarina e Rio Grande do Sul, tem risco de adoecer com a dengue."

O custo justifica o benefício?
A vacina não atende pessoas abaixo de 9 anos e acima de 45 anos, deixando de fora a população idosa, considerada mais vulnerável às formas graves da dengue. Por isso, segundo a coordenadora do Comitê de Virologia Clínica da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), Nancy Bellei, é preciso avaliar sua aplicação caso a caso.
"Não há como recomendar a vacinação. As taxas de hospitalização nas idades não cobertas vão continuar elevadas. Além disso, o custo de R$ 80 fica próximo ao da vacina da gripe, por exemplo, que tem um custo-benefício já avaliado e é considerado muito bom devido ao número de pessoas que deixam de ser internadas todos os anos. Essa vacina ainda não tem essa avaliação, agora que foi aprovada no México (no início de dezembro) que vamos ver", afirma.
Segundo Granato, essa não é uma conta fácil de fazer. "Tem que avaliar se o valor investido na vacina vale a pena em comparação ao gasto com internação, insumos e todo o atendimento prestado ao paciente com dengue, que também não é pequeno, e ver se isso justifica o gasto", afirma.
Para Bosco, é preciso levar em conta ainda a parcela da população que, mesmo com a baixa eficácia do medicamente, uma vez vacinada não seria fonte de infecção para o mosquito. "Vacinando pessoas de 9 a 45 anos, os outros grupos estariam protegidos de forma indireta", afirma.

Todo mundo seria vacinado?
A epidemia não é igual em todas as regiões do Brasil. O maior número de casos de concentra no Sudeste (62,8%), seguido do Nordeste (18,5%), Centro-Oeste (13,3%), Sul (3,3%) e Norte (2%). Por isso, a Anvisa indica o método preventivo em pessoas que moram em regiões endêmicas. "Como não temos uma epidemia só no pais inteiro, ela (a vacina) pode ser recomendável para uma região, com um tipo de vírus, e não para outra", explica Nancy Bellei.
É preciso lembrar ainda que a vacina da Sanofi Pasteur não protege contra o zika vírus e chikungunya. "Não podemos deixar de continuar combatendo os vetores, até porque essa vacina não é 100% eficiente, por isso o risco de dengue continua crescente, mesmo que as pessoas sejam vacinadas", afirma o diretor da Anvisa, Ivo Bucaresky.

A vacinação com a Dengvaxia, no entanto, não impediria o futuro uso de outro medicamento, como a vacina que está sendo desenvolvida pelo Instituto Butantã. Segundo Nancy, tudo indica que o medicamento não deve apresentar problemas de interação com outras vacinas.


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